O ENCURRALADO
Não sou o Denis Weaver, mas estou me sentindo como se fosse.(rss)
Não há dúvida alguma: Estamos ficando loucos e babacas e chegará o momento em que seremos todos controlados eletrônicamente. Mas enquanto essa fase não chega aproveite mesmo assim, apesar de tudo. Um dia, o seu, o meu neto, a sua neta dirão, nossos avós eram felizes e não sabiam.
A humanidade está vivendo a era da “mea culpa”. Sinal vermelho, sinal amarelo. Faixa branca, parada proibida, preferencial, proibido fumar, visita somente no domingo, não entre, não ultrapasse, não jogue papel higiênico no vaso, use o cinto de segurança, seu farol está queimado, seu extintor venceu. – Senhor, diz uma criança com farda de guarda mirim, posando de adulto: O Senhor está com meia roda sobre a faixa branca de pedestre e assim, não está se comportando adequadamente. E lá vem lição de moral numa inversão de valores e de funções descabida. No comercio, a placa antiga ainda sobrevive: “Não vendemos fiado”, “não aceitamos cheques”. No condomínio, não faça barulho após 22 horas, não acelere com força, respeite a velocidade máxima de 20 km. – Mas meu senhor, 20 km. é quase parando, não dá pra fazer uma reunião e aumentar pra 30? – Tá bom deixa pra lá, já sei que você está cumprindo ordens, todo mundo cumpre ordens. E eu realmente não quero ser "Americo o reformador do mundo". Paz e amor, irmão.
Vou largar tudo isso e vou com a família pra pousada, pois Caldas Novas já não dá mais, aquilo lá é um esgoto a céu aberto, afinal já me disseram que eu respiro ares da Finlândia, enfim na Pousada Rio Quente, gasta-se mais, porém, ops, cuidado com as palavras preconceituosas.
Que nada, quase me colocaram pra fora, porque eu estava jogando xadrez no corredor do hotel e o regulamento não permite, aquilo lá também está cheio de marmiteiros.
-Ta vendo, mulher?, viajamos quase 200 Quilômetros para eu ficar mais nervoso ainda. Ah, desculpe estou estressado e quando voltar procurarei o Dr. Marcelo Caixeta, quem sabe, ele dá um jeito nessa minha arrogância.
E a qualquer dia, a qualquer hora ou a qualquer momento, uma voz meiga, gentil, do outro lado da linha: Senhor é do Banco tal, mas antes de lhe oferecer nosso produto, aviso-lhe que nossa conversa está sendo gravada – Moça desculpe interromper: Então melhor desligar, porque toda semana me ligam para me oferecer o mesmo cartão que eu já tenho e se eu falar com você hoje, você vai com certeza gravar muitos palavrões.
Antes, podíamos tudo, hoje não podemos nada. Sou um pobre cidadão, que já levou um pescoção na cara, por um gorila de 64 em frente o Cine Brasil na praça Sete em BH e eu nem sabia o que era comunismo. Agora livre do verde oliva, sou prisioneiro de regras e normas exageradas, arbitrárias, que ferem o meu direito individual e nada posso fazer. Não sei se canto, “pra não dizer que não falei das flores” ou se choro aquela pasmaceira, “meu Brasil, meu Brasil, eu te amo, ninguém segura a juventude do Brasil”. No fundo eu acho mesmo, que os portadores de fardas, hoje transformados em pequenas autoridades, estão se vingando da gente, impondo pequenas regrinhas para infernizar nosso dia a dia.
E assim, como dizia o meu inspirado amigo Chico Anízio (nada de Mendes ou Xavier, pra não complicar) “Eu sou o Bento Carneiro, o vampiro Brasileiro e minha vingança será maligna”.
Será? Depois disso, só conheci um vingador que foi aquele cangaceiro que habitou a Casa da Dinda, por uns tempos, mas... enquanto isso, o muro de Berlim cai de novo numa encenação espetacular em forma de dominó e com convidados especiais e pasmem, Coréia do norte e do sul, brigam novamente.
Mas tudo isso passou, hoje sou um cara alegre, feliz, um pequeno burguez e até me chamam de elite e assim, fico meditando os hábitos do novo milênio, do pobre povo Brasileiro, que se intitula em seu complexo de inferioridade de terceiro mundo.
E assim, consolidando esse pensamento tupiniquim, na pescaria, temos que levar uma balança e uma fita métrica.
E com a consciência de que estamos na luta para proteger o meio ambiente, ficamos ali, sentados horas e horas, na canoa, no barco e quando finalmente fisgamos aquele peixe enorme, vem o complexo de culpa. Passamos nossas mãos e em suas barbatanas, em seu dorso, olhamos para os seus olhos de um brilho triste e semi-opaco e o devolvemos ao seu habitat natural e voltamos pra casa, com a sensação do dever cumprido. A cartilha do Pardido Verde, embora eu não tenha mesmo vontade de votar em Marina, estará sempre ali no cantinho da minha vida, me alertando, me lembrando, cuidado com a natureza.
Alardeamos o fato de que não deixamos um saquinho de plástico à beira do rio e assim não corremos o risco de nos tornarmos assassinos de uma vaca leiteira.
Copos descartáveis, de tanto assistir programas políticos do partido verde, eu nem jogo fora mais, lavo todos eles com água e sabão e os reutilizo. Fico com medo que alguns daqueles que eu tenha usado, possa ser identificado no futuro deserto amazônico, ou aqui no cerrado Goiano, com um sistema de busca avançado para encontrar digitais, descubram por ali que fui eu um dos causadores de todo estrago que está por vir e que os terroristas portadores de bíblia já preconizaram como fim do mundo. E aqueles filhotes de papagaio no alto daquela árvore, são tão lindos, eu poderia levar um pra casa e ensiná-lo a cantar aquela musica: “eu era um bêbado e vivia drogaaado, mas encontrei Jesus”. Desisti, numa dessas eu posso ser preso e ser considerado mais perigoso e mais bandido do que o Fernandinho Beira Mar.
Portanto, como diz sempre o Ronaldo Vasconcellos, bola verde pra mim !!!
Elegemos políticos para que, depois da posse dêem demonstração de força. Isso não pode, aquilo também não pode. Velocidade máxima 80 e os fiscais arrecadadores ficam ali escondidos entre moitas com radares precisos e eis que de repente, alguém fardado ergue as mãos e lhe dá ordens incontinentes para que você pare. Discurso, multa, punição administrativa para iniciar um processo de lhe cassar o sagrado direito adquirido de ir e vir, de preferência dirigindo um veiculo motorizado. A carteira, minha carteira foi embora, esqueci-me de que a pontuação estava além do permitido. Eles ficam rindo como se estivessem assistindo um programa do Jô. Sabem e percebem o grau de humilhação que nos impõem, sabem que pagamos o seu salário e tiram sarro emitindo aquela maldita notificação, com a consciência do dever cumprido, mas sabedores de que ao executarem essas tarefas apenas quando lhes convém, quando lhes dá na cabeça, tornam essa ação tecnicamente injusta. Fiquei pensando, ele deve estar indignado porque comprei a caminhonete com isenção de IPI e ele sequer consegue sonegar o imposto de renda que lhe descontam na fonte. Mas em compensação ele tem aposentadoria integral e nós pobres civis, pagamos a vida inteira sobre 10, 20, 50 salários mínimos e aposentamos apenas com um.
Mas... meu amigo
-Não tem mais nem menos, assine aqui, mas o senhor tem o direito de recusar assinar, pois pela lei não pode gerar provas contra si próprio.
-Não, de forma alguma, imagina, passe a notificação que eu assino, pois não quero nesse momento chamá-lo de mentiroso. O Senhor Pode me prender por desacato a autoridade, não é?
-Pensando bem, o Senhor tem razão, não é uma má idéia. Mas o Senhor tem cara de gente boa, pode ir embora.
-Obrigado, o sr. é muito compreensível, sr. guarda e, por favor, releve qualquer gesto, palavra ou atitude minha que possa ter dado margem para que o sr. se arrependa de ter me concedido a honra de ser liberado pelas suas mãos. Gostaria de pedir-lhe um autografo e até tirar uma foto, mas estou constrangido diante do fato de que isso poderia ser interpretado de outra maneira.
Até aí tudo bem, mas de tanto disfarçar meu nervosismo, paro minha possante caminhonete 10 km à frente e me dirijo a uma arvore bonita e frondosa para esvaziar a bexiga ou falando rasgado, fazer um xixi.
Minha mulher apavorada desce do carro e diz: - Pelo amor de Deus, não judie da arvore, ela pode morrer sob o efeito nocivo e venenoso de sua urina e alguém pode estar vendo, anota a placa do nosso carro e faz uma denuncia pra um fiscal do IBAMA, você vai preso, como se estivesse torturando uma maritaca, ou cantando musica do Nelson Gonçalves.
Mas mulher, estamos no meio do mato, já fiz isso tantas vezes nas goiabeiras lá do Passa cinco. Pensando bem, tenho saudades daquelas porteiras de fazenda, onde se lia em todas elas “Casas Pernambucanas”.
-Onde foi isso?
- deixa pra lá, mulher, hoje o nome daquilo lá é reserva florestal e estão construindo lá um enorme presídio que pode servir de exemplo pro resto do Brasil, ou seja, bandido pé de chinelo tem que ficar preso é na sua própria cidade e de preferência próximo a rios e represas, pois quando houver incêndio fica fácil apagar.
-Tudo bem, vou direcionar meu fraco e nervoso jato, a essa indefesa cerca de arame farpado, afinal, ninguém gosta de cercas assim.
-De jeito algum, esse ácido úrico, pode causar estragos no metal da cerca que pode não ser de boa qualidade, e vai que um pobre passarinho pousa, gruda as patinhas e morre de fome e solidão?
-Está bem, vou parar num próximo posto de gasolina e espero que não esteja muito longe.
Parei no posto, resolvi meu problema e como sempre, nada de sabonete, a torneira não tinha água e nem toalha de papel.
-Só pra sacanear o cara do restaurante, pedi um cafezinho, porque sei que é grátis.
Mas saí que nem aquele evangélico feliz que ama Jesus, até na plena desgraça e assim aprendi que a gente deve agradecer por tudo de ruim que não acontece com a gente, pois reclamar é coisa de gente enjoada e ultrapassada e estressada.
Melhor mesmo é ser feliz. Agradecer sempre, pedir sempre, como um cordeirinho. Pensei até em chegar à Capital e mandar fazer um daqueles adesivos românticos, pra mostrar que sou um cidadão exemplar: “comprado por mim, guiado por mim e quitado por Jesus”. Uai sô, depois dessa mudança brusca que fizeram na oração Pai nosso que estais no céu, perdoais as nossas ofensas (dividas) assim como nós perdoamos a quem nos tenha ofendido (devedores). Descobri que foi aí que a igreja católica parou de ser a causadora direta da inadimplência, e talvez tenha sido lobye das Casas Bahia (rss).
Posto isto e mais aquilo, resolvi seguir viagem e descobri que havia guardado uns CDS de musicas antigas (sou colecionador e apreciador, não pensem que vivo somente de reclamar da vida, tenho meus momentos de ternura).
Enfiei o CD e ainda no estacionamento do posto, com o volume bem alto, (foi sem querer) e toca aquela música de autoria do Rubens Soares e David Nasser – “Nega do Cabelo duro”. E na seqüência, o refrão: “qual é o pente que te penteia, qual é o pente que te penteia”. Mas pra que?
Minha mulher me deu uma dura de novo e o frentista do posto, já tava me olhando atravessado. Acelerei, e me mandei e pra não ficar com aquilo na minha consciência, pressionei o teclado e me vem aquela marchinha de carnaval:
“Olha a cabeleira do Zezé, será que ele é, será que ele é”.
Minha mulher de novo, com ar de delegada me ameaça: Amor, estamos chegando, desligue essa música, você não está vendo que estamos no meio de uma parada gay e vai que alguém escuta isso lá fora, a polícia vem e prende a gente, desliga, desliga logo isso aí. Fiquei meio receoso, mas logo depois me lembrei que eu tinha sim, um amigo gay chamado Calcinha e quem sabe, ele estando ali no meio, com certeza me ajudaria.
Pronto, silencio total, passei pelo desfile e nem olhei para não fazer aquela cara de zombaria, de ironia mesmo, pois quando eu era criança lá em Ponte Nova, eu chamava essas meninas é de Viado mesmo, mas parece que hoje é ofensa e você até pode ser preso. Por isso estou deixando bem claro, eu não escrevi Viado aqui agora, refletindo meu atual estado de espírito, estou apenas contando o que eu fazia quando criança e assim, acho que não posso ser preso, pois Leis pelo que sei, ainda não têm efeito retroativo.
Minha mulher de novo: Você é que pensa: O Negro Job, vereador de Goiânia, não conseguiu sacramentar em Goiânia, o dia da consciência negra, como feriado, mas já está pensando em encaminhar ao congresso uma Lei, para que todos os descendentes de fazendeiros e plantadores de cana sejam julgados e condenados..., nisso, ouço uma voz que diz: “hei, você aí, me dá um dinheiro aí... não vai dar, não vai dar não, você vai ver que grande confusão...
“Minha mulher me cutuca de novo e me diz com aquele ar sem graça, - “Não é o seu CD antigo, preconceituoso, é um assalto mesmo”, o cara ta lá fora com o revolver apontado pra sua cabeça”. E no dia seguinte, no sinal de transito, começou tudo de novo:
- “Tio, vai uma cocada bahiana, aí, baratinho tio, embaladinha, me ajuda”
Luiz Bento Pereira (64)
Representante comercial do Ramo têxtil em Goiânia
Escreve nas horas vagas
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